Temos nos deparado com fragmentos de estórias, registros de vidas e experiências que andaram jogados ao vento. Um mosaico cheio de cacos com variadas formas, cores, sons e cheiros se descortina à medida que os passos se aproximam da próxima esquina, da rua antiga, da vizinhança batendo papo com as cadeiras na calçada. Cada vez mais raras visões. O resgate da memória começa quase como uma infindável terapia, pode vir através de nossos bisavós, avós, pais, irmãos e amigos da tenra idade. Ser tocado pela lembrança de fatos ainda tão vivos na mente de nossos entes queridos é praticamente uma transmissão telepática, um adicional ao DNA. Quanta riqueza de detalhes se perde e ao mesmo tempo se tornam tão concretas ao ouvir entusiasticamente seus pais narrando suas aventuras de juventude. Somos contadores de estórias natos. Temos nossos princípios enraizados na crença de histórias passadas por várias e várias gerações desde que o mundo é mundo. Sábios eram considerados àqueles que podiam deter o conhecimento das palavras e sua missão era protegê-las e transmiti-las. No avanço do tempo e novo milênio, as manifestações tecnológicas camuflam a interação entre as pessoas. O mundo está conectado. Internet, celulares, webcams... Só não se “acha” quem não quer, mas então por que as pessoas se sentem cada vez mais sozinhas? Por que as pessoas idosas são excluídas das famílias? Por que as crianças perderam seus referenciais? O contato físico tem sido substituído pelas teclas que acessam o fantástico mundo virtual. Viva a energia elétrica! Quando se desliga a tomada ou acontece um blackout o mundo padece em stand by e ficamos todos aflitos e ansiosos à espera da volta da luz para podermos voltar a viver, voltar a interagir.
E se transformássemos as estórias jogadas ao vento em sementes, ou melhor, chips? Se fizéssemos germinar em processadores velozes, memórias? Quando se quer guardar algo para a posteridade, registra-se. Reconhecemos a história por filmes, músicas, fotos... Digitar a receita do doce de figo da vovó, gravar em mp3 as cantigas de ninar com aquela voz doce que só a sua mãe sabe fazer pra você adormecer, quantas possibilidades de se resgatar lembranças, recordações!!!! Maneiras de se transmitir conhecimento, vivências, passando por muitas gerações através de mensagens virtuais, inclusive!!! Mas e o contato de mãos suaves em seus cabelos, a tez peculiar daquela pele, tantas vezes acariciada??? A palavra certa, de quem sabe porque já experimentou, àquela dificuldade? A possibilidade de interação recíproca acompanhada do olhar, do toque...A questão é que todos temos um link com o passado. A parafernália tecnológica que está cada vez mais acessível a todos nós, veio sim para dá à sociedade sua contribuição, mas sem olharmos de onde viemos não teremos referências para onde iremos. Não é necessário que segmentemos e rotulemos “as coisas” do passado a revelia. O passado nos trouxe até o presente e de ambos é que resultará o nosso futuro, e enquanto concepção de tempo e espaço podem ser relativos, pare pra pensar: o futuro pode ser agora.
Ariana Moraes – Arquiteta Especializada em Meio Ambiente
Adriana Guimarães – Arquiteta Especializada em Restauração