Esse texto corresponde a parte de um trabalho do meu curso de pós-graduação.
O espaço arquitetônico é reconhecido pelo homem, desde os primórdios da sua existência como o seu universo particular. Adentrar neste universo é compartilhar das intimidades acerca de cada ser humano que vive, ou viveu na Terra. O objeto artístico, o fazer artístico sempre esteve intrinsecamente ligado ao ser humano e essas produções correspondem a inúmeras reflexões. A começar pela própria história do homem, refletida, inicialmente e quase que perfeitamente, nas cavernas pré-históricas. Onde a função da obra de arte não fora intencional, como hoje acontece.
O valor dado aos desenhos das cavernas é usualmente um hábito recente – a partir dos estudos sobre a paleontologia – a descoberta sobre o interesse na história da humanidade e conseqüentemente nas artes elaboradas pelos homens. Como nos primórdios, os homens viviam nas cavernas, o poder da força de expressão artística ficou mantido e foi evoluindo, com o surgimento das casas e das cidades.
Não apenas os desenhos, mas os utensílios, as armas, a forma de se aquecer do frio com agasalhos naturais, deram forma ao sentido artístico, que nasceu primeiramente como necessidade, para posteriormente ser apreciado como obra de arte, com valor artístico.
A evolução da arquitetura e das representações de obras de artes inseridas na arquitetura é compreendida a partir das experiências vividas no decorrer da história. A arquitetura e a produção artística quando analisadas apresentam uma correlação ambígua e misteriosa, pois, ao mesmo tempo em que se analisam as contraposições, analisam-se também as junções. Ora a arquitetura não é vista sem a obra de arte, ora o homem detalha a arte de tal maneira que a arquitetura se oculta ou se sobrepõe. Essa análise ambígua pode ser reparada nas eras Egípcia e Greco-Romana. Por ora, não se sabe se as pirâmides são obras arquitetônicas ou representação artística plena, pois se conhece que a arquitetura representa teto, abrigo, casa, local de convivência, moradia. E sabe-se que, entrar nessas pirâmides era praticamente impossível na época que foram erguidas, pois constituíam em verdadeiros labirintos, para o abrigo dos reis egípcios mortos, elas tinham um significado transcendental, muito além do sentido técnico e prático. Já a arquitetura Grega se mescla com a forma das cidades e de toda uma evolução humana.
O espaço da arquitetura é freqüentemente mesclado ao da arte; tanto em diversas análises, quanto em textos normativos. Esta confusão inicial talvez ocorra por haver sido a arquitetura – ao longo da história – considerada como tal apenas ao tratar da construção de edifícios monumentais ou de caráter público ou religioso. No entanto, a prática da arquitetura moderna, principalmente a partir das vanguardas do início do século, abriu o ideal da mesma para todos os ramos da construção civil. É tarefa do arquiteto a criação do meio-ambiente construído para o homem. Este aumento de responsabilidade acabou por colocar o arquiteto num impasse: de um lado há a necessidade de construção de um meio-ambiente genérico, como palco anônimo da existência humana; do outro lado encontramos a responsabilidade histórica do arquiteto em criar sempre uma coisa entre coisas, um objeto diferenciado que sintetize a experiência de quem o cria e vivencia: a priori, uma obra de arte.
É importante conceituar a arte. Numa primeira instância, mais genérica, consideramos parte da obra de arte o mundo que ela reúne e cujos múltiplos sentidos e significados circulam ao redor dos diversos pólos de sua existência. Uma segunda instância da obra de arte estaria na consideração dela como objeto.
“Heidegger diferencia objeto de coisa, tratando por objeto à relação da coisa que existe por si só à revelia do sujeito com este sujeito-homem: uma coisa independente auto-suficiente se transforma num objeto se a colocamos diante de nós, seja pela percepção imediata, ou seja, por trazer à mente uma representação sua.” (MACEDO, 2002, p. 06)
Assim, a obra como objeto existe na mente do artista antes de existir como coisa auto-suficiente. Ela existe de modo potencial como objeto na medida eu que o artista se propõe a realizá-la como coisa no futuro. Ela existe mesmo como objeto para o intérprete que se dirige ao museu esperando travar contato com ela.
Por fim, tem-se a instância da obra de arte como coisa auto-suficiente, que, em sua materialidade, existe à revelia de um sujeito que lhe presencie. Se esta instância parece à primeira vista a mais restritiva da obra de arte, vemos que, no entanto, é exatamente esta autonomia que lhe confere um potencial infindável de interpretações indetermináveis por diversos sujeitos.
Assim, se é tarefa da arte ajudar a conferir sentido à existência dos que com ela travam contato, uma importante linha de trabalho artístico está exatamente em recuperar a importância da materialidade das coisas, no sentido e na existência do homem. Parece mais produtiva a concentração da produção do objeto artístico como uma coisa entre outras – o homem incluído – que delas se destaca por sua capacidade de síntese e compreensão destas mesmas coisas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário